segunda-feira, 22 de julho de 2013

Onde estão as reservas de ouro? - Parte I


Ouro? Boa ideia.

Recentemente, o ouro voltou a ser um tema quente. Robert Lenzner, ex-banqueiro e agora analista da Forbes:
A notícia de que a Alemanha quer repatriar parte das suas reservas de ouro dos EUA e da França faz preocupar bastante, porque é o primeiro grande sinal de que a confiança entre os bancos centrais do mundo está a deteriorar-se.
E quando a confiança desaparece, começam os problemas.
Não é um acontecimento isolado. São muitos os Países nos últimos 50 anos têm depositado o ouro nos grandes cofres norte-americanos e britânicos, mas agora queria ter tudo de volta.

Depois de ter passado 50 anos em casa estrangeira, hoje o ouro da Alemanha deveria voltar à sua terra natal: pelo menos 50% do total das reservas. Esta decisão foi tomada recentemente pela Bundesbank, o segundo maior proprietário de reservas de ouro do mundo.

Porque e porque agora? Existem várias razões. Em parte, porque uma lobby de economistas, advogados e empresários alemães está a exercer pressão neste sentido, mas não só.

A história começa em Outubro passado, quando o Tribunal de Contas alemão solicita uma inspecção dos cofres dos bancos centrais que guardam o ouro do País no estrangeiro. Isso nunca tinha acontecido antes e provocou uma atmosfera de suspense internacional. Também porque tinha havido uma ambígua experiência anterior: segundo a revista Der Spiegel:
Em 2007, depois de inúmeros pedidos, os inspectores da Bundesbank tinham sido autorizados a entrar nos cofres da Federal Reserve dos EUA, mas apenas na ante-sala. Quatro anos depois, em Maio de 2011, os inspectores fizeram uma segunda visita e desta vez foram capazes de entrar em um dos nove compartimentos onde está o ouro alemão. Poucos lingotes foram pesados, mas o resultado destas auditorias foram mantido secretos, a pedido da Fed.
A partir desse momento, começa a desenvolver-se um plano de sete anos para a restituição que começaria em 2013 e deveria terminar em 2020. Assunto: a transferência de 54 mil lingotes de ouro dos cofres de New York para aqueles de Frankfurt. Uma operação (aparentemente) sem efeitos secundários sobre o mercado. Na verdade, desencadeia um efeito dominó.

Os holandeses, que têm apenas 10% do seu ouro em casa e o resto nos cofres de New York, Ottawa e Londres, fica agitada e também solicita inspecções e relatórios. Outros Países estão a preparar-se para fazer o mesmo.

Obviamente, nesta panorama também desempenha um papel importante a crise do Euro. De acordo com Peter Krauth, analista de Money Morning:
A Alemanha está a preparar-se em caso de dissolução do Euro e quer o ouro, possivelmente para suportar um novo marco alemão.
Esta hipótese, que traria de volta os ponteiros da história monetária dos últimos 40 anos, também é apoiada por outros analistas e autoridades monetárias.

Aqui surge uma pergunta? Mas o ouro ainda está lá onde deveria estar? Se assim for, porque leva 7 anos para voltar ao seu País de origem?

As voltas do ouro

Steve Scacalossi, vice-presidente da TD Security, diz que o ouro "é alocado fora", isto é, a Fed tem 
"emprestado" ou "alugado" para outras pessoas/empresas/Países, por isso não pode ser devolvido já porque isso poderia causar problemas acerca dos juros que a Fed percebe.

Keith Barron, um geólogo responsável por importantes explorações minerarias, é mais directo:
Eu acredito que a maior parte das reservas de ouro do mundo ocidental, que deveriam estar nos cofres dos bancos centrais, na verdade encontra-se em mãos privadas na Índia e o que resta continua a ser encaminhado para a Ásia. Portanto, a maior parte do ouro ocidental desapareceu dos cofres e agora é só uma entrada nos livros contáveis.
Estes bancos centrais e bullion banks [uma bullion bank é um banco que opera como comerciante de grandes quantidades de ouro, ndt] simplesmente "fazem girar" o ouro que nunca volta para os Países de origem.
Como confirmação das palavras de Barron, há um episódio significativo: em 1990, a Drexel Burnham Lambert, um dos principais bancos comerciais na época, foi à falência envolvida no escândalo dos junk bonds de Michael Milken, homem da grande Finança acusado de extorsão e fraude. Poucas pessoas sabem que o Banco de Portugal (óbvio...) tinha emprestado 17 toneladas de ouro ao banco. Ouro que simplesmente evaporou, numa altura em que era cotado a 380 Dólares por onça.

Mas voltemos aos 7 anos para devolver o ouro alemão. Há alguns meses, o ouro estava a voar em direcção dos 2.000 Dólares por onça: neste novo cenário, já sete meses de tempo apresentaria dificuldades, sete anos torna tudo impossível. O que gera inevitáveis suspeitas.

Pode ser este considerado como um bom momento para "comprar de volta" o ouro emprestado? Claramente não. E como é possível "comprar de volta" (2.000 Dólares por cada onça) uma coisa que no passado valia muito, mas mesmo muito menos? Os bancos que irresponsavelmente puseram em circulação o ouro que deveriam ter guardado, hoje devem pagar montantes astronómicos para recuperá-lo e devolvê-lo. E deveriam também apaga-lo dos seus livros contabilísticos.

Entre outras coisas, se a Alemanha insistir e provocar um real efeito dominó, com outras Nações afazerem o mesmo, o mercado do ouro físico poderia reagir de maneiras inimagináveis: os bancos centrais de muitos Países emergentes estão a comprar ouro como nunca antes e o preço poderia disparar.

Apesar do diálogo entre os vários operadores ter sido sempre bastante "reservado", começam a circular informações apoiada numa suspeita: mas não será que nos cofres do bancos centrais há menos ouro daquele efectivamente depositado e declarado?.

Tentamos reconstruir um pouco desta história.
Agora? Claro que não: só na segunda parte deste artigo.

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